biosphera21

               voltar ao início

na natureza e no tempo (no mundo)
paisagens partilhadas+ensino
estudos das Escrituras
labirintos da alma
na espiral
sobre








   
labirintos da alma


retornar ensaios para tempos de crise








A ELITE NA PORTA DOS FUNDOS
Euler Sandeville Jr., São Paulo, 16 a 23 de dezembro de 2019.

Em 2018 e 2019 a Netflix e a Porta dos Fundos investiram em um programa intencionalmente ofensivo aos religiosos, em uma das datas mais significativas para boa parte deles que, para muitos, se reveste de um sentido sagrado. É necessário dizer, antes de mais nada, que este texto não é o que escreveria especificamente para cristãos, seu destino ultrapassa a questão da fé e se ocupa da esfera pública contemporânea.

O episódio teve amplas repercussões na imprensa e na mídia, talvez mais do que entre os cristãos. Atingiu, pelas temáticas, também a muitas pessoas que, não sendo cristãs, se identificam com os símbolos do sagrado como um valor em si ou com outros valores comportamentais, além de ofender a outras religiões monoteístas ou espiritualistas, pois a percepção de Deus ultrapassa amplamente em nossa sociedade as esferas do cristianismo.

O acontecimento não é tão simples como se pode querer fazer parecer. O que me preocupa aqui, portanto, não é o insulto gratuito, embora me desagrade; não há novidade nenhuma em insultar. Aliás, insultar parece ser cada vez mais estruturante do comportamento, como todo tipo de violência, barbárie e manifestação de intolerância e preconceito. Este texto é sobre isso, mas, antes, vejamos

(I) SOBRE O QUE NÃO É ESTE TEXTO, EMBORA TAMBÉM SEJAM TEMAS IMPORTANTES.

A razão pela qual escrevo não é para debater o conteúdo do programa em si, realizado em um ato e linguagem quase infantis, mas de muitas consequências nada infantis. Também não é para discutir as críticas desfavoráveis ou favoráveis enquanto mais um sofrível espetáculo de Natal. No fim, acabaria sendo como qualquer outro, não fora a intenção de agredir, pois é emergente da cultura capitalista e política em que vivemos. Para além dos fatos em si, pessoas e grupos empresariais específicos sempre ganham muito, direta e indiretamente, simbólica e financeiramente – inclusive com visitações e cliques –, nesses circuitos tão complexos do divertimento, da cultura, da política e das chaves identitárias e geopolíticas de todo tipo de conflito e de guerra.

Também não escrevo para discutir a convergência de pautas morais com conservadorismo político e, até pior, com o banditismo inserido na política. Nem para discutir o antagonismo de seu reverso, as pautas mais ligadas aos desejos e ao individualismo, seja quando são associadas a um comportamento de consumo emergente no liberalismo econômico, moral e universalizante mas organizado em nichos desde o pós-guerra, seja quando associadas a pautas mais radicais fragmentárias e identitárias tidas como de esquerda.

Não vou desenvolver aqui essas questões porque são assuntos até mais complexos do que o episódio em si ou seu contexto imediato. Por paradoxal que seja, as relações de contradição ou convergência não são tão simples nem tão homogêneas nessas forças em disputa pelas narrativas e decisões. Portanto, esta reflexão não é sobre nenhuma dessas coisas, todas por demais relevantes, mesmo que reconheça que essas questões se entrelacem profunda, contraditória e indissociavelmente com temas e acontecimentos como este episódio que trago aqui, ou com tantos outros postos em conflito recentemente. Resta então observar um pouco melhor

(II) A QUESTÃO QUE ESTE TEXTO LEVANTA, EMBORA NÃO SEJA TODO O DEBATE NECESSÁRIO E SE ENTRELACE AOS TEMAS ACIMA.

Ao que esta geração está se educando? Se cada um sentir-se no direito, seja qual for a razão que pensa e se arvora a ter, de vilipendiar, de agir preconceituosamente ou de ironizar e reduzir o que é do outro e o que é o outro, como vem acontecendo, estamos a um passo da arbitrariedade e da violência.

Não me parece legítimo o recurso à ironia preconceituosa e essencialmente ridicularizante do modo de ser e dos valores de judeus, muçulmanos, cristãos, budistas, feministas, ambientalistas, LGBT+, negros, mulheres, umbandistas, ativistas do sistema de produção da cultura, latinos, norte-americanos, mexicanos, venezuelanos, haitianos, libaneses, israelitas, palestinos, orientais, nigerianos, estes e outros entrelaçados em uma cultura capitalista e consumista. Não há limites para o que socialmente produzimos? Não me parece legítimo compactuar que sejam ofendidos e violados.

Como defendia Martin Luther King, luto para que meu filho não seja definido pela cor da pele, mas por seu caráter. Ora, estamos dando passos atrás, graves. Em todos esses nomeados no parágrafo anterior, e outros, questões e divergências podem ser colocadas, mas não pela estereotipação. Nenhum desses grupos é concorde, nem deveria ser. Que sociedade é essa que, dependendo de quem fala, tem na ofensa a outros grupos a sua prerrogativa e estratégia?

Não se trata de justificar nem de condenar, nem uns, nem outros, ainda que se trate de divergir. Mas como? Certamente não desse modo como vem ocorrendo. Todos podem estar equivocados e cometer erros, muitas vezes gravíssimos, erros aos quais devemos nos opor. Também podem ter seus sentimentos bons, seus acertos, sua beleza, que devemos respeitar. Podemos colocar todos em um mesmo pacote de antagonismo e desrespeito mútuo e chacoalhá-los, empurrando-os uns contra os outros para ver o que acontece? O que acontece não terá como ser bom. Esta é a “caixa de pandora” que se tem aberto. Não há, em todos esses grupos, mulheres, homens, crianças, idosos, que mereçam ser respeitados?

Parto do princípio de que não temos de ser concordes, a divergência pode ou não ser necessária e legítima. Até onde vejo, a afirmação ética e de valores é um fato potencialmente positivo; a violação, entretanto, é negativa. A mim pareceria descabida uma ideia de um ecumenismo social anódino e insosso, em que nada fizesse diferença, como se todos sorrissem a tudo, concordes em tudo. Tal condição, em vez de eliminar a contradição, a camuflaria, abrindo brechas passionais à violência, como de fato está ocorrendo. De qualquer modo, se não for descabida, é irreal. Nós temos diferenças e temos o direito e às vezes o dever de manifestá-las, mesmo quando são contraditórias com outras visões de mundo. Somos diferentes entre nós em muitas coisas, pensamos diferentemente em questões de profunda importância e não aspiramos às mesmas coisas.

No entanto, vivemos ultraconectados e na multidão fragmentária dos desejos e sonhos temos que encontrar o espaço comum do direito e do respeito, o que implica limites a todos. A construção desse espaço comum é o que antigamente chamávamos de cidadania, de dimensão pública, de política, de direito. Torna-se natural, em uma sociedade materialista em suas práticas e concepção de mundo, mas muito nocivo, que tenhamos substituído esses valores sociais pelos desejos autonomizados em sua repetida publicização, pelas transcendências sem sair do sofá, pelo individualismo ultraensimesmado e ultraexposto, pela politicagem antipública e demagógica.

Haveria muito o que dizer, sobretudo sobre a noção de tolerância e de esfera pública, na qual os debates devem se colocar. Os que ironizam o outro conhecem essas pessoas que são atingidas? Por caso, todas se encaixam em suas amarguras? Se desejam dizer algo ou defender alguma ideia não há porque vilipendiar o outro, o que lhe é caro, mesmo que para você pareça bobagem, crendice, atraso, moralismo ou imoralidade. Quanto mais organizar programas e esforços centrados nessas disfunções.

Quando uma posição antagônica incomoda é razoável destruir, através da pilhéria ou da detratação, todo um conjunto social que lhe é oposto? Se este for o pensamento, saiba que é o pensamento da guerra, onde os que lutam não são os que concebem e mandam, nem os que ganham. São a massa dos que matam, operam a injustiça, multiplicam a brutalidade, às vezes em contradição com o que eram ainda ontem. Alguns, dentre esses enviados à matança mútua, como reforço e bom exemplo para os demais, recebem condecorações fúteis pela destruição infligida ou recebem penalidades pela recusa em participar. Construir leva tempo, exige esforço; destruir geralmente é rápido e gera entulho.

Esse tipo de fundamentalismo invertido, camuflado na ironia e até de liberdade, é extremamente dúbio e antiético. Encampar o desrespeito e o preconceito, pode não ser o alegado exercício da crítica, mas o exercício de um sentimento preconceituoso ou que simplesmente externa seus próprios impasses. É necessário discernir. O próprio governo, partidos, produtores e a política estão manipulando continuamente esse círculo sem saída. Este é o problema desse tipo de coisa. Cada um sente a ofensa de onde lhe dói e, reagindo, ofende ao que lhe aflige e oprime. Obviamente, não veem todos a mesma coisa na mesma coisa, tornando-se a seus próprios olhos cônscios e motivados por uma necessidade ilusória de destruir algo.

Construir um convívio social demanda respeito. Isso está sendo, nesses tempos de toda forma de fundamentalismo religioso, politico e comportamental de “A a Z”, um grave incentivo a continuarmos nessa pegada desrespeitosa e decepcionante em que, como país e como cidadãos, nos metemos, ora achando graça ou desprezando, ora indignados. Hoje, parece que se acha que ofender ou humilhar o outro é engraçado e uma estratégia válida. Daí, sentamos em seminários longos para discutir a gravidade do bullying ou de outras formas da barbárie.

Esse tipo de radicalidade que ofende e agride a fé, a religião, a cor da pele, o gênero, as opções de foro íntimo e o direito de participação nas decisões sociais (que deveria ser a política), está se disseminando e solapa o nosso convívio, acirra e tensiona os conflitos e deixa intocada as suas causas. Pior, as entrega e as empurra à barbárie e contribui para instilar a incivilidade. É necessário sair dessas camadas injuriantes para uma possibilidade melhor do que essa, abandonando essa pobreza mental programada de rede social e de mídia e recuperar o sentido, a riqueza e a responsabilidade da linguagem, que é nossa construção de mundo, recuperar o respeito e a responsabilidade pelo que se faz, além do mero manifestar a catarse do ódio, do desejo, do desprezo pelo que seja.




      









^ retornar ao início da página


espiral da sensibilidade e do conhecimento
uma proposta de Euler Sandeville Jr.







contato ↑
licença ↑