biosphera21

               voltar ao início

na natureza e no tempo (no mundo)
paisagens partilhadas+ensino
estudos das Escrituras
labirintos da alma
na espiral
sobre








   
labirintos da alma


retornar ensaios para tempos de crise








PASSAGEIROS CONFORTÁVEIS
Euler Sandeville Jr., São Paulo, 12 de dezembro de 2019

Assisti a Passageiros, uma ficção científica dirigida por Morten Tyldon, de 2016. Devo dizer que gostei do filme, embora vá apontar algumas fragilidades. O que pode indicar duas coisas significativas. Uma, de que pode haver alguma distância entre a diversão, a imaginação e a reflexão. E que essa distância pode ter seus momentos saudáveis. Outra, que pode haver, o que deveria ser considerado normal, uma posição não unitária, não categórica, mas relativa ao que se analisa.

De pronto fica evidente que o roteiro deixa um pouco a desejar, apesar de bem orientado, por seus saltos no que poderia ser uma continuidade infinita na solidão estelar em uma imensa nave hibernada. É quase sempre o romance um tanto óbvio e previsível, que pretende ser o encanto da narrativa, que os causa. Ainda assim, o romance tem certo apelo estético e moral e bons sentimentos sempre ajudam em um tempo de tanta barbárie, o nosso.

Barbárie e tecnologia nesta passagem de séculos, até pouco tempo futurista – 1984, 2001 etc. -, projetam a distopia que temos visto cada vez mais frequente em nosso cotidiano e probabilidade de futuro. No entanto, a distopia do presente, que não tem nada de ficção, parece não preocupar o futuro dos roteiristas e do diretor. A perspectiva desse futuro, acertadamente distante nesse filme ao não tentar localizar-se ou sugerir-se em qualquer tempo do amanhã, entretanto, não acrescenta muito ao design imaginativo e já bastante rico da ficção. Promove, ainda assim, belos cenários estelares e uma viagem pelo cosmo que não deixa de ter sua sedução.

Em que pesem estas e outras críticas ao filme, gostei muito de assisti-lo; em geral gosto de ficção e a ausência de monstros – já os temos demais por aqui – coloca em questão coisas interessantes e merece algum crédito a tentativa desses enredos. A ideia de uma empresa planejando negócios de 120 anos de duração para a entrega do serviço e mensagens de feedback inviáveis na duração da vida humana também sugerem que a tecnologia irá propor outras experiências, que certamente se realizem no imediato (no caso, da hibernação, por exemplo), mas que venham a demandar projetos de duração muito mais longa do que a vida humana. Não precisamos ir longe, a duração de determinados projetos e investimentos hoje já sugerem quase uma suprapersonalidade a essas organizações chamadas empresas, negócios, investimentos sistêmicos e de magnitude.

Claro, o filme imagina uma vida humana como se estivesse em Las Vegas, e sabemos que a vida humana e o corpo humano, como os conhecemos, está em vias de tornar-se arqueologia. Se você não vê isso, desculpe o spoiler desse tempo sem imaginação ou sem bondade que estamos vivendo. Quando tudo é matéria, quando tudo é engenharia, que valor poderá ter a vida ou que sentido a consciência? O filme parece não supor nada disso e esse futuro longínquo é povoado por pessoas do século XX.

Do lado positivo, essa tensão entre a vida humana e a distância estelar, entre o imediato da hibernação e a consciência do transcurso, mediadas pela memória, pela publicidade e pelas expectativas, possibilita muitas temporalidades serem assim pautadas, sem que se atravesse nenhuma dobradura do espaçotempo comuns aos filmes de ficção. A memória do vivido, a obra que evanesce no imediato mas deixa seus testemunhos (as árvores das últimas cenas), é de fato uma consideração que merece alguém dar-se o tempo para refletir. Não por ser original, não é, mas por ser ainda parte da vida.

Acostumados com o imediato e a obsolescência programada da tecnologia, da publicidade e dos artefatos, é interessante pensar que certas tecnologias poderão projetar uma duração maior do que a vida humana para sua gestão, e as implicações disso nesse mundo cada vez mais imediato. Não em nosso agora, nesse reino, que já se desgasta –demandando novas tecnologias de agregação – de redes sociais e de dados onde 365 dias são uma duração inútil para o planejamento empresarial, séries de 5 anos de dados são quase teses sobre o passado. Mas, em breve, a duração das megaestruturas econômicas de produção e consumo, ao tempo em que exigem a experiência do imediato e da ausência de valor intrínseco, poderão exigir uma estabilidade crescente do controle e da programação.

Além dessa questão, a ideia da solidão em um espaço distante, magnífico, é sedutora, grandiosa. Já não é o filme, sou eu. Algo que muitas vezes imaginei. Ultimamente nem tanto, mas essa ideia me atraia como uma possibilidade além de meu alcance. Talvez já não tão impossível quanto antes, na medida em que apareceu no concreto do nosso tempo o turismo espacial. Para quem pode pagar por um dia na Estação Internacional, deve ser fabuloso.

Meu sonho, uma fantasia, já foi entrar em uma astronave com um domo de vidro, em que iria pelo sistema solar aos seus limites, mesmo sem passagem de volta. Certamente, escrevendo e desenhando, se possível com uma biblioteca da história humana, compreendendo a densidade e a dimensão da experiência humana, sua tragédia. Talvez alguma insanidade e embriaguez decorrentes do excesso de lucidez fossem necessárias, mas, nessa ausência de futuro que uma tal jornada proporia, poderia tocar a eternidade da existência ainda aqui na existência. Claro, perderia o nobre e inquietante desafio humano de envelhecer no convívio com os contemporâneos como parte da definição de si no envelhecimento, mas o sentido de convívio também é algo que a pós-modernidade está anulando, tornando quase intangível e não raro hostil para além das diferenças narrativas dos iguais.

Na imensidão da criação, com a vista coalhada de estrelas e corpos celestes, teria a antevisão da grandeza infinita e inimaginável de Deus.

É por demais evidente o contraste dessa visão do universo, da criação, com a tola presunção humana que nos põe a desperdiçar o tênue tempo de nossa existência com a injustiça, por gerações – chamamos essa passagem dos séculos de história e a reescrevemos sem pudor ou vergonha para que o passado seja lido pelas tragédias do presente, jamais o contrário. É como se tudo se resumisse a uma guerra de narrativas. Tola, porque empenhamos séculos, gerações e engenho para produzir a violência, a morte e os instrumentos e símbolos de sua execução. E assim continuamos fazendo, pior, nos esmeramos e produzimos meios ainda mais brutais de fazê-lo e representá-lo, inclusive no cotidiano imagético do cinema, da política e da TV em rede.

Bem, reconheço que não é das mais positivas a minha visão do tempo em que vivemos, dos seus valores, das suas estratégias, dos seus fundamentalismos políticos e polaridades cada vez mais banais e das suas radicalidades, a meu ver, sem saída.

Claro, mas aqui já não é o filme, porque me descolo de sua sugestão por algo que já imaginei para mim tantas vezes. A ausência ou presença do romance, que no filme cria certo conforto ao coração ocidental e hollywoodiano, é também a poesia dessa jornada. Quantas coisas suspira o coração na vida, sem alcançá-las, quando não se perde em ambições fúteis, sem encontrar o magnífico significado de um céu estrelado. Claro, urbanóides ou super-homens nietzschianos, em céus de vapor de sódio e mercúrio driblando o entrelaçado de paredes de neon e vidro e telas de aplicativos, nos impedem de ver os ciclos repetidos e gigantescos da natureza, a fisionomia e o caráter do outro e nossa real dimensão no cosmo.




      









^ retornar ao início da página


espiral da sensibilidade e do conhecimento
uma proposta de Euler Sandeville Jr.







contato ↑
licença ↑