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POSSIBILIDADES E VALORES
Euler Sandeville Jr.
07 de dezembro de 2019

Foi um ano de grandes mudanças em minha vida, tanto no âmbito pessoal, quanto na atividade profissional. O desligamento que nossa sociedade supõe entre essas coisas é exagerado, como o desligamento que se espera entre as convicções íntimas e as relações sociais. Aceitamos como valor em sociedades tradicionais a coesão entre esses polos que dividimos, mas esperamos que entre nós haja uma curiosa cisão. Isso não é possível para mim, a minha fé não é distinta das minhas práticas, nem da minha visão de mundo. Talvez porque sua origem não seja nem moderna, nem ocidental, funda-se em uma sabedoria ancestral, sobre o que posso escrever em outros momentos.

As mudanças que consumei em minha vida em 2019 colocaram a possibilidade, senão mesmo a necessidade, de uma redefinição de muita coisa, o que nem sempre é fácil, sem contar aquelas que devemos superar ou crescer em nosso próprio âmago. Para completar, a sociedade contemporânea tem dado mostras de mudanças radicais em muitas esferas, trazendo perplexidade e preocupação. Mudanças que não são instantâneas e geram resistências profundas que só as aceleram e as tornam mais nebulosas e propensas à violência no imediato. Na verdade, tratam-se de rupturas profundas e graves que estão muito além dos conflitos que as evidenciam, e estão tornando-se agora evidentes e dramáticas muito rapidamente.

É natural, nesse contexto, que tenha que rever muitas coisas, com prudência e ponderação, com profundidade, sem contudo poder parar o curso das coisas no âmbito das quais preciso constituir a consciência dos meus caminhos e do que implicam. Há contradições entre as possibilidades que se apresentam e as escolhas que venha a fazer, e uma incompletude minha para esse desafio.

Hoje, depois de minhas orações, tive a ideia de fazer um desenho organizando as coisas que venho pensando e que me exigem decisões complexas para o ano que vem, tornando visíveis na representação os conflitos de vontade decorrentes entre o que gostaria e o que acho que ainda devo considerar. Não foi um processo linear, mas, sem dúvida, foi um processo encadeado. A forma como fui organizando pode vir a ser útil para alguém.

Tenho realizado cada vez mais “mapas mentais” para organizar conversas e complexidades no trabalho comum, seja para registro, seja para orientação, sem ser, nem de longe, um aficionado desse recurso. Nunca me havia ocorrido usá-lo em relação a mim mesmo. Fui fazendo naturalmente, quase sem perceber, em um quadro branco que fica sempre em minha mesa de trabalho e, quando me dei conta, estava lá o resultado.

Resultado que foi muito bom e, na medida em que ia organizando a imagem, ia entendendo como tinha que organizá-la e como se relacionavam as coisas umas com as outras. Basicamente, parti de um centro que indicava alguns aspectos mais fortes de minha intimidade nesse contexto. Isso se expressou em três tópicos, não de imediato, mas, à medida que ia organizando os demais, fui fazendo este. Meu campo pessoal e íntimo de possibilidades, contradições, saberes e fragilidades estava representado ali. No entanto, é através dos campos de atuação e afetos que se realizam. Ou seja, não podem se realizar, nem positiva, nem negativamente, como uma condição interior.

Os demais eram campos relacionais ou de dedicação e irradiaram desse núcleo, no sentido de que os movimentos que devem me ocupar nessa reflexão irradiavam em torno de possibilidades e contradições íntimas, mas que não se fecham sobre si mesmas. Ao contrário, como disse, se manifestam como aprendizado e como realização no espaço relacional.

As coisas foram saindo assim:

Em azul foram ocupando o campo as potencialidades, as coisas positivas (não significa fáceis) ou que configuram meus campos de interesse e atuação neste momento.

Aí, em vermelho, foram brotando delas as contradições e conflitos que geram ou são geradas por tocarem campos de desconforto para mim ou de antagonismo entre as pessoas com quem convivo. Ficou claro, tanto nos azuis, como nos vermelhos, o peso que as pessoas têm para mim. Também fica clara a origem dos desconfortos nos campos que são postos (ou já estão, na verdade) em movimento. O interessante foi ver o que mais me incomodava e como surge ou se relaciona com as coisas que prezo.

Foram brotando as chamadas em azul e destas aquelas em vermelho ao mesmo tempo em que surgiam linhas azuis e vermelhas conectando-as, relacionando esses temas.

Em seguida, com o verde, desenhei algo que estou percebendo sempre. Ficou claro que valia indicar as distâncias que esses campos tendem a produzir entre si. O que deixou mais claro no quadro e colocou em relação as causas das distâncias e das contradições que as colocam em movimento.

Enquanto isso ficava pronto, o próprio desenho mostrava a aglutinação ou o distanciamento dos campos e os marquei com a caneta preta, e a última que tinha. Surgiu uma linha que fechava um perímetro, exceto em um ponto. O preto poderia destacá-las indevidamente, mas por ser apenas uma linha entre tantas outras linhas e pequenas chamadas em texto, ficava sutil. Isso é importante, porque não há propriamente ruptura entre elas.

Esse desenho também me levou a perceber o peso de um desses pontos, que não havia conectado ao núcleo através de uma linha azul, por distração. Porém, penso que foi a mente trabalhando em muitas camadas o que produziu isso, não propriamente uma distração, dado o significado que tem em minha consciência. De modo que, mesmo sem a linha, visualmente era como se estivesse conectada (porque de fato está), magnetizada, tanto que só percebi depois. Deixei assim, está orgânica, mas é exatamente o ponto que mais conflitos, opressões e demandas gera e, talvez, mais resultados relevantes gera também. Talvez os outros não aparentem isso apenas porque não os desenvolvi tanto. As interações humanas tendem a ser complexas, mesmo quando se querem solidárias.

Essa última linha preta que reconhece os campos, com a verde que reconhece o que os afasta, mostrou a segmentação dos campos e a complexidade atingida na simplicidade do desenho. O que é evidente para mim, porque sei o que se desdobra de cada uma das atividades e sua intensidade, ficando claro que não haverá tempo para desenvolver tudo. Aí está um problema central, mas não o único. A minha dedicação, ao que for, é sempre intensa; mas também precisa de um tempo que esvai, que se perde e em que o olhar se perde. Pensar nesse redemoinho “pós-moderno” que parece ginástica aeróbica e produtivista da nossa conexão e competição cada vez mais imediata no presente, e cada vez mais aflitiva em pautas fragmentadas e ininterruptas, está em contradição com o melhor sentido de aprender, pensar, ponderar, avaliar, discernir.

Comparando as linhas verdes, vermelhas e azuis nos caminhos, ficou clara a dimensão dos conflitos, os vermelhos deixam claro o que pesa ou até oprime, afastando a decisão para outro campo, os azuis o que é potencialidade que atrai a decisão inclusive entre os campos, pelo que representam; os verdes trazem as incompatibilidades e suas causas mais imediatas.

Foi muito interessante e reconfortante ver esse resultado e a forma natural como isso se constituiu, como a disposição no papel indicava tanto a complexidade quanto os afastamentos de uma forma quase didática para mim, talvez em parte para pessoas que me conheçam melhor. No entanto, como esses campos em conflito ou contradição não se referem apenas à minha intimidade pois se tecem em campos sociais heterogêneos (mas me permitem pensar como eu me insiro nelas), mesmo alguém que me conheça bem deve estar alerta para não se levar pelos preconceitos ou banalizações de sentido que coisas tão esquemáticas poderiam gerar no incauto distraído, mergulhados que estamos nas mesmas coisas e conflitos, mas não dos mesmos modos.

Embora, obviamente, saiba essas coisas o tempo todo, pois não emergiram novidades, no cotidiano, mesmo nos momentos de reflexão, elas flutuam em síntese e são polarizadas pelos acontecimentos. Pensando agora, vejo que o próprio desenho mostra o que é pesado e o que é mais leve, mas não indica bem o que deve ser prioridade ou não, até porque essa é uma questão que precisa ser melhor resolvida.

Poder vê-las juntas, com pesos equivalentes mas nem por isso igualadas na minha consciência que as pondera há algum tempo, permitiu-me percebê-las ao mesmo tempo distintas e em simultaneidade, com clareza e sabendo a complexidade que cada anotação põe em movimento relacional e pessoal, mas também os entrelaçamentos entre o social e o afetivo. Essa distinção e simultaneidade, e outras complexidades implicadas, podem não ser perceptíveis facilmente para uma outra pessoa em sua densidade, mas são nítidas para mim. Uma coisa que fica clara é a densidade a que o estado atual de frentes me convoca e que há de fato uma dificuldade de conciliar e conjugar todas, seja em termos de temas, de valores ou de tempo que demandam. É inevitável que compitam, pelo menos como estão agora. Também mostra que o campo de conflitos sociais em que me movo, como todos nós, polariza algumas dessas questões, que para mim poderiam existir integradas, mas estão por demais fragmentadas e acirradas nas disputas em curso.

Ou seja, o conflito que venho sentindo e muitas vezes expresso em meus textos não é imaginário, é plausível e se justifica pensar longamente. A dúvida, em parte, está em se devo aceitar um encadeamento híbrido entre esses campos por um pouco mais de tempo, na esperança de que isso permita uma solução a médio prazo mais rica para um conjunto bem maior de pessoas, mesmo tensionando e polarizando questões pessoais.

Por isso, esta foi uma experiência muito boa e de muita satisfação, que levou pouco tempo, coisa de uma hora e meia (qualquer texto breve de página e meia que escrevo leva muito mais do que isso), mas que me possibilitou um belo resultado e visão simultânea do que tenho que ponderar. Não traz a solução, nem deveria trazer, mas auxilia ao clarificar os problemas e as potências, as contradições e afetos, as razões e impossibilidades que estão demandando uma organização e decisão e, portanto, algum nível maior ou menor de escolhas e ajustes.











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espiral da sensibilidade e do conhecimento
uma proposta de Euler Sandeville Jr.







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