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A LEGITIMIDADE DAS DECISÕES
Euler Sandeville Jr., 24 de janeiro/05 de outubro de 2019

Tenho estado pensando sobre a fé e a religião nos dias atuais 1.  Tenho questionado, em sua complexidade contraditória, a condição contemporânea na construção de seu projeto radical de secularização Iluminista, moderno e pós-moderno, de todas as esferas da vida.

O questionamento da secularização, entretanto, rapidamente pode ultrapassar a questão da legitimidade das visões de mundo e das subjetividades e se colocar no campo político das esferas de vida pública e, portanto, da intersubjetividade e das disputas por legitimidade e legitimação das opiniões e decisões 2.

De modo que nada disso é simples. Desejo aqui tão somente indagar o papel da religião nas esferas de vida pública em que deve se colocar necessariamente, não raro, antagonicamente. Não é uma questão menor em um Estado democrático, nem tão simples como campos ideológicos e partidários em conflitos fundamentalistas entre si desejam fazer parecer.

É necessário questionar, como fez em certo momento Jürgen Habermas (2013, P. 14):

A crença cientificista em uma ciência que possa um dia não apenas complementar, mas substituir a autocompreensão pessoal por uma descrição objetivante, não é ciência, é má filosofia. Mesmo o senso comum esclarecido cientificamente não será privado por nenhuma ciência de, por exemplo, julgar como devemos lidar com a vida humana pré-pessoal sob descrições da biologia molecular que tornam possíveis as intervenções da engenharia genética.

E (p. 15):

Mas a procura por argumentos voltados à aceitabilidade universal só não levará a religião a ser injustamente excluída da esfera pública, e a sociedade secular só não será privada de importantes recursos para a criação de sentido, caso o lado secular se mantenha sensível par a força de articulação das linguagens religiosas. Os limites entre os argumentos seculares e religiosos são inevitavelmente fluídos. Logo, o estabelecimento da fronteira controversa deve ser compreendido como uma tarefa cooperativa em seu se exija dos dois lados aceitar também a perspectiva do outro.

pode haver ainda um papel social necessário para a dimensão do sagrado e do transcendente na vida pública e que essa condição não precise ser remetida ao diálogo entre fundamentalismos políticos e religiosos nas disputas sociais pelas consciências, territórios e campos de consumo coletivo e supranacionais, mas ter um espaço no debate ético nas decisões contemporâneas que se devem tomar?

Esse projeto de secularização não conta três séculos na história humana e corresponde à emergência da chamada sociedade burguesa, da sociedade urbano-industrial e do capitalismo, incluindo aí seu alter ego. Deve, de fato, esse projeto restringir as respostas que devemos ser capazes de dar e as decisões que devemos tomar?

Em outras palavras, devemos estar constrangidos à essa esfera produtiva do imediato e do consumo em sua constituição de valores 3,  em sua reinterpretação e modernização contínua desses paradigmas tão recentes? Ou ainda, é legítimo interditar uma visão transcendente da vida nas decisões éticas na ambiência dessa sociedade de consumo, também chamada de sociedade do espetáculo 4?

Os valores ancestrais cristãos e de outras religiões expressos em uma significação da vida transcendente à matéria e ao acaso ainda têm o que dizer sobre a vida e às implicações que isso traz para uma sociedade tecnocientífica e de consumo nas decisões que toma, ou isso deve ser relegado, encurralado e lançado ao silêncio dos fundamentalismos e à interdição de sua participação no debate pelos secularismos?

Claro, há uma dimensão verdadeiramente dramática e voluptuosa na barbárie da natureza humana profunda, em seu destempero ávido, no qual paradoxalmente a religião e a política tantas vezes são facilmente tragadas e usadas. Mas também o são as ideologias políticas, as manipulações econômicas, as guerras e revoltas, as personalidades messiânicas egocêntricas não raro propensas ao crime, as formas de disputa pelo poder, entre tantas outras coisas. Ainda assim, em que sejam partilhados os equívocos ou não, não é minha intenção uma defesa da religião como um valor em si.

Se você leu a nota 1, saberá que não é a religião o que me motiva e sim a fé e comunhão em Cristo e o evangelho o que nos transforma. Entretanto, socialmente, há questões distintas da salvação e transformação pessoal e interpessoal no convívio da chamada comunidade de fé, para as quais a fé genuína e mesmo as religiões podem contribuir com uma visão transcendente do mundo para a valorização da vida, valorização mais relevante em uma época de tecnociência com os valores reduzidos ao econômico e ao consumo. Qual de nós está pronto?

É necessário se colocar em debate, na constituição e construção das esferas públicas contemporâneas, a manipulação redutora das imagens mentais para capturar em preconceitos os campos de oposição.

É também necessário questionar a cisão moderna e contemporânea do ser entre subjetividade - a esfera da particularidade, das escolhas arbitrárias - e a dimensão pública, através da qual a religião, mas não os desejos (que no contemporâneo estão na esfera do individualismo e do consumo), ficam relegados à interdição moralista, tanto quanto disso é acusada.

Veja, não nego que existam essas dimensões redutoras na sociedade e que, entre outros, grupos de poder vinculados a religiões estejam problematicamente entre elas, como estão também outros grupos e atores sociais. Não se trata de abstrair a sociedade nem a religião, suas contradições e as contradições das construções sociais em conflito. No entanto, a cisão moderna do ser e do mundo entre a matéria como objetividade (quando não uma racionalidade bastante duvidosa) e a espiritualidade como subjetividade fugidia, me parece apenas um artefato histórico que, paradoxalmente, reclama a si a condição e legitimidade inquestionável de A verdade.

Por que, ao ouvirmos os relatos dos chamados povos tradicionais, respeitamos de modo condescendente sua infusão entre espírito e matéria, mas entendemos que um cidadão que não esteja nessa condição, deva silenciar tal visão de mundo? Fazemos assim parecer convenientemente que aquela é uma crítica válida da sociedade exatamente pela dimensão poética e de alteridade que sentimos haver perdido, mas, aqui, torna-se sinal de ignorância, mesmo quando aberta ao debate e ao convívio. Entretanto, essa alteridade que admiramos, não tem um quê de uma visão de uma condescendente superficialidade quase turística e de certa consciência de culpa, remetendo assim os chamados saberes tradicionais (e as tradições arcaicas orientais como o cristianismo) a uma condição que não nos alcança e por isso mesmo segura para a sociedade contemporânea, embora evidentemente não o seja para esses povos?

Duas observações finais, antes de concluir em seu necessário inacabamento este ensaio.

Primeiro, consideremos ainda que essa suposta universalização da razão e da técnica, na verdade mais da técnica e do consumo, são um fenômeno urbano, industrial e informacional de grande escala, que se dissemina de modo desigual pelas regiões menos urbanizadas. Ou seja, em sua formação radical de consensos antirreligiosos é, na verdade, também ela um fenômeno histórico e como tal, perde sua autocompreensão em sua própria contemporaneidade que lhe permanece assim velada.

Segundo, o fenômeno da religião na contemporaneidade foi remetido à esfera da subjetividade extremada e deve ser compreendida não nos seus termos, mas deve dialogar a partir dos termos próprios da tecnociência e seus ambientes acadêmicos, notórios por certo elitismo e normativismo. Isso quer dizer que fica capturada no âmbito dos fenômenos psicológicos e sociais; em última análise, sua verdade é um problema de (psica)análise e de fundamentalmente de educação moderna (esta, conforme já se postulava no projeto Iluminista, que está no nascedouro da sociedade ocidental e sua difusão planetária). A esperança Iluminista, e dos ismos que lhe seguem, na razão, é sucessivamente posta em crise pelos acontecimentos, mas parece resistir na base discursiva até os anos 1960 e deixa-nos, além de seus ecos, como base inquestionável de autoridade do conhecimento as ciências e a escolarização universitária, devendo reproduzir-se pelos interstícios sociais e na educação básica. A religião, entretanto, como se sabe, não cedeu em sua esfera desautorizada ou de diálogo a partir da negação de seus termos e linguagem, que perdem validade social. Continua um fenômeno contemporâneo complexo e profundamente enraizado na sociedade, como agora volta-se a discutir tanto em suas crises de valores e práticas quanto na possibilidade de construção de valores.

Portanto, os vínculos com o poder que se estabeleceram em longos períodos se reorganizam, e incluem novas formas. Estas, novas e velhas formas, considero bastante distantes do sentido da religião, mas consomem e agregam camadas sociais extensas e diversificadas na construção social. Em outros trabalhos faço a crítica dessa condição. Porém ela não resume a questão da religião na contemporaneidade e, também, sua exclusão tem a ver com a divergência que representa para um projeto social que não tem a vida como valor ético, porque se esgota na técnica e na manipulação da natureza que, desnudada de propósito transcendente, torna-se recurso como valor e custo econômico e autossatisfação.

Nesse contexto (lembro-lhe que a mim interessa mais a fé do que a religião nos termos em que as entendo), nada se autoriza a religião a dizer sobre o valor inerente da vida por sua transcendência como um peso nas decisões sociais. O que aprisiona em um embrutecimento os conflitos resultantes. Mas, bem pode ser que, para além da acusação de ignorância e fundamentalismo (mesmo quando não haja), não interessa a uma sociedade tecnocientífica e de mercado (e portanto de consumo e realização de desejos pelo consumo dos bens e dos corpos) que a vida tenha um valor que não seja sua instrumentalização material.





notas



1 Como sempre, distinguo entre fé - a certeza das coisas invisíveis, a comunhão com e confiança no Deus Vivo, Eterno e Criador, em Cristo ressurrecto -, e a religião - um conjunto organizado de normas eclesiásticas, ritos, organização e institucionalização de símbolos muitas vezes substitutivos da fé, portanto, mais apensa às coisas visíveis a partir a referência sincera ou não ao invisível e transcendente. Nesse sentido, a fé é mais do que a crença, a qual fica no domínio social da religião. A fé é um dom espiritual, sua realidade em minha forma de expressar é de outra natureza. Já a religião, reside em uma condição híbrida, que pode incluir a experiência espiritual com Deus, mas pode estar muito mais apensa às relações sociais e políticas. A visão, portanto, que tenho é negativa, mas como construção social, guarda os valores da fé. Para este texto, é necessário discernir que a religião como estrutura de poder ou crença deve ser problematizada cuidadosamente e pode estar em contradição na prática com os valores que lhe dão suporte, mas como portadora de valores da fé pode contribuir para a construção ética. É desta última dimensão que me ocupo neste texto, realizando a crítica da instrumentalização da religião em outros trabalhos que tenho escrito.


2 Embora entenda que a sociedade não é, nem deva ser laica, entendo que o Estado deve ser. Mas essa afirmação ainda deixa muitos pontos sob a necessidade de aprofundamento, sobretudo o que significa em um Estado, ao menos em tese, tripartite entre executivo, judiciário e legislativo, especialmente neste último que, em tese, deveria ser um campo político legítimo representativo dos debates da sociedade. Claro que não devemos ficar na discussão das teses, mas levar em conta que o Estado, nem em tese, não é distinto da sociedade, mas é uma esfera intercambiante da sociedade. E, como tal, a ideia de que seja isento tem algo de irreal, definindo a necessidade de que de fato haja mecanismos sociais de controle dos que decidem por aqueles em nome dos quais se decide (POPPER, 2003). Contudo, essas esferas sociais estão extremamente comprometidas com as econômicas, simbólicas e partidárias de controle e sua disputa.


3 Agnes Heller (2000, publicado em 1970), em O Cotidiano e a História tem confiança na história como um desenvolvimento das forças produtivas, mas a construção de valores, cuja objetividade é para ela social, e portanto a história é o processo de construção ou ocaso deste ou daquele valor. Mas o que é o valor, indaga a autora. O pensamento da autora é complexo e vê na história como uma realização de possibilidades, dotada de certa razão de propósito. Ao indagar o que seja o valor, entende que "A essência humana, portanto, não é o que 'esteve sempre presente' na humanidade (para não falar mesmo de cada indivíduo), mas a realização gradual e contínua das possibilidades imanentes à humanidade, ao gênero humano" (p. 4). A autora fala também de desvalor, que seriam aquelas construções sociais que rebaixam o desenvolvimento atingido por determinada componente dessa essencialidade humana que deve se desenvolver com a história. Portanto, concorde-se ou não com essa visão de uma possibilidade imanente humana que se desenvolve na apenas na história, não lhe é portanto inerente mas uma construção social. De modo que, a autora mesmo vendo aí uma relação de propósito e desenvolvimento, portanto de valor, explicita que a construção de valores (e seu ocaso, ou ainda os desvalores) se dá nas relações produtivas e históricas. Se aceitarmos essa relação entre desenvolvimento das forças produtivas sociais e sua construção (e desconstrução) de valores, cabe bem a pergunta divergente que coloco neste ensaio.


4 A expressão Sociedade de Espetáculo é de Guy Debord (1997). A partir dessa proposição, que me parece rica como o conceito de sociedade urbana de Lefébvre, indago sobre a construção e desconstrução de valores (e desvalores, como proposto por Heller). Ora, a quem interessa a interdição da transcendência da vida e do mundo nesse mundo social de espetacularização dos desejos e das normas cada vez mais moralistas nos seus extremos (incluindo direita e esquerda), ao mesmo tempo em que se colocam nessa sociedade os valores perenes em uma conveniente impossibilidade moral na constituição de seus valores atuais ligados ao consumo e ao poder? Aqui, a exemplo do entendimento que adoto para a fé e religião, a moral é uma condição necessária potencialmente positiva na construção social de valores, diz respeito à ética. O moralismo torna-se, como o fundamentalismo (um descolamento e autonomização dos valores a que alega se referir), uma condição potencialmente negativa e arbitrária, que se autonomiza da ética pela subserviência ao costume e não raro pela subordinação do pensamento e da contradição a algum tipo de interdição arbitrária e apriorística, tal como se revela nos fundamentalismos de direita e de esquerda e nos religiosos.



bibliografia citada

DEBORD, G.-E.; A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

HABERMAS, Jürgen. Fé e Saber. Trad. Fernando Costa Mattos. São Paulo: UNESP, 2013.

HELLER, Agnes. O cotidiano e a História. Trad. Varlos Coutinho e Leandro Konder, 6a. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2000 [1970].

POPPER, Karl R. Conjecturas e refutações. Trad.: Benedita Bettencourt. Coimbra: Almedina, 2003.


      









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espiral da sensibilidade e do conhecimento
uma proposta de Euler Sandeville Jr.







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Folha, detalhe. Foto de Euler Sandeville, 2009.