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O DESPREZO PELO PÚBLICO
Euler Sandeville Jr., 13 de fevereiro de 2019

As críticas que difundem um desprezo pelos profissionais dos serviços públicos como ineficientes, privilegiados e outras tantas desqualificações, pode ser justa para com alguns desses profissionais, mas seguramente não o é para todos. Muitas dessas críticas, entretanto, são injustas. Injustas não apenas porque ignoram a realidade a que se referem, criando uma camada de preconceito sobre ela; injustas porque o fazem com essa intenção ou simplesmente reproduzindo lugares comuns redutores e detratores.

Ete breve ensaio é sobre essas críticas, as que são injustas. Apesar de ecoarem lugares sociais comuns, não são, nesses casos, tão aderentes à realidade quanto se fazem parecer. Quando é esse o caso, não são ingênuas nem decorrem de uma boa consciência. Cabe então perguntar: o que encobrem?

Podem estar encobrindo algumas verdades mais profundas, como a de que a ineficiência é produzida pelo frequente uso politico e partidário de suas estruturas, por sucessivos desmontes, por ineficiência grotesca de gestão a cargo de políticos com vínculos com interesses econômicos estranhos ao público, pela multiplicação de procedimentos administrativos inúteis, por transferências e locações aleatórias ou indevidas de recursos, por competição interna associada ao poder sempre em mudança e sem uma política pública que não seja a da circunstância, a da oportunidade política, a da disputa por poder.

Também um fator é sempre omitido: as dificuldades, que são reais, trazidas pela imensidão da organização em uma sociedade urbana de milhões e milhões de pessoas esparramadas em um território construído de modo pouco cívico. Ainda assim, seria bom uma CPI do dinheiro público, dos exageros no seu uso pela classe política, pelos privilégios de classe de políticos, de partidos, de empresas beneficiadas, de isenções de dívidas públicas. É claro que isso não será feito, pois seria colocar a descoberto os nomes dos jogadores desse jogo e seus vínculos.

Como sempre, em tudo o que escrevo, não vai aqui qualquer simpatia a nenhum partido político, nem às ideologias antagônicas de uma imaturidade de densidade quase infantil e palavras bradadas ferozmente ao léu que propõem, percolando pelas instituições, casas, empresas, universidades, clubes, seitas, diretórios, em sua busca pelo poder, cujas consequências têm o alcance não dos brinquedos, mas infelizmente de jogos com a vida e com a consciência do mundo que formamos estando juntos.

De qualquer modo, destruir é fácil, tornar desinteressante e ineficiente é fácil, culpar os outros por sua má gestão é fácil, mas, para contingentes imensos da população a educação pública, o sistema de saúde, a questão ambiental e outros serviços essenciais são condição de vida. Literalmente condição de vida, de presente e futuro, não uma escolha. Cumpre melhorá-los, corrigir as disfunções, não destruí-los e transferir seus recursos para outros que deles não precisam.

Há os ineptos e mal intencionados, e não são tão poucos (o pior é quando são postos em comando ou como mariposas atraídas pelos holofotes do poder), mas estes são frequentemente protegidos pela politicagem e burocracia. Àquele que presta o sentido público com maldade, é disso que se trata nesse caso, e já vi isso em coisas essenciais à vida, fica meu repúdio veemente; no entanto, a desorganização contínua desses sistemas e a recorrente baixa estima nacional os encobre. Há uma visão supérflua e hedonista da vida e da sociedade, descomprometida com o outro, na qual esses marcos que nos incomodam logram estabelecerem-se. Eles não são um indicativo apenas das dificuldades do exercício público, mas também das condições culturais da nossa sociedade como um todo.

No entanto, a maioria de professores e profissionais da saúde que conheço - falo do que observo, não é estatística, mas testemunha ocular sem prejuízo de que haja o oposto, que também já vi - enfrenta condições todos os dias as quais a maioria das pessoas nunca foi sequer olhar, nem irá, quanto mais contribuir para seu enfrentamento. Minha inquietação vem de que eu vejo as dificuldades com que os servidores públicos - professores, profissionais da saúde, em especial - lidam e procuram superar, muitas vezes assumindo custos reais, e vejo o tamanho das carências a serem enfrentadas diante de uma sociedade que lhes vira a face ante um problema que é comum, portanto, público. A destruição do público e da sua significação é a destruição da possibilidade de civilidade que almejamos, sempre colocando-se ao alcance das mãos e esvanecendo no horizonte de nossa brutalidade, indiferença e fragilidade de valores.

O DESPREZO PELO PÚBLICO assume assim um duplo e trágico sentido social. O primeiro se dá na recusa do campo da ética e dos valores praticados, é o desprezo e desrespeito pelo que coletivo, a negação do outro como vida em comum. O segundo sentido, decorrente, se dá em um campo ausente de ética, em que o público é reduzido à hipervalorização da exterioridade da publicidade, da imagem mais do que do sentido praticado, do jogo de palavras e preconceitos e redução do entendimento e da visão de mundo, portanto, colocando o público em um campo imediato de manipulação, ausente de valor e de ética, pleno apenas de efeito. Interessa aos que querem ocupar esses espaços, capturar esses recursos, como se vê com tanta frequência.




      









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espiral da sensibilidade e do conhecimento
uma proposta de Euler Sandeville Jr.







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Folha, detalhe. Foto de Euler Sandeville, 2009.