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RESPEITO À VIDA: UM PAÍS EM CRISE ÉTICA
um país tem que ter uma expectativa digna e duradoura do que, e de como, quer ser
Euler Sandeville Jr., 24 de janeiro/05 de outubro de 2019

Há uma dimensão verdadeiramente dramática e voluptuosa na barbárie da natureza humana profunda, em seu destempero ávido, no qual paradoxalmente a religião e a política tantas vezes são facilmente tragadas e usadas. Mas também o são as ideologias políticas, as manipulações econômicas, as guerras e revoltas, as personalidades messiânicas egocêntricas não raro propensas ao crime, entre tantas outras coisas.

Permita-me dar um exemplo da condição em que estamos imersos, contrária aos mais elementares princípios da religião, do humanismo ou da democracia, que tão fortemente caracterizam valores e conflitos nessa era recente em que existimos.

Recentemente li que Jean Willys teve que fugir do país para preservar a própria vida. Seu acolhimento em Harvard é posterior e diz respeito à capacidade estratégica deles, nada da nossa. Escrevi e publiquei a primeira versão deste ensaio na ocasião. Permita-me também, desde logo esclarecer: não votaria nele, pelo contrário, discordo de muitas coisas que ele diz e do modo como diz.

Mas, não é essa a base da democracia, as pessoas poderem expor questões e terem de se respeitar? Mais, não é a base da ideia de civilidade que acalentamos? O erro de um não torna justo o erro do outro, ainda são o que são, erros.

No entanto, as notícias de uso da violência, ameaças e arbitrariedades parecem estar se tornando recorrentes, como aconteceu com o próprio presidente, ex-presidente, juízes e outros deputados, todos estes frequentemente destemperados em suas manifestações e parciais em suas decisões.

Se os líderes se prestam impunemente a essa intemperança, certamente é porque a sociedade a habita ambiguamente. São cada vez mais frequentes os ataques passionais de um contra o outro no cotidiano da sociedade, as manifestações de intolerância e intransigência, a violência contra a mulher, crianças, idosos e tantas injustiças e covardias que todas as semanas nos chegam.

Por qual razão deveríamos supor que, fechando os olhos ou cerrando os dentes e falas ao lado da violência, não estamos construindo o próprio impossível social no qual iremos habitar dramaticamente? Ou que, essa condição, mesmo que não nos atinja diretamente por alguma razão certamente frágil, ainda que não nos pareça assim, não irá nos atingir exatamente com a destruição dos valores que imaginamos defender?

Nesse contexto, voltemos ao exemplo em tudo desagradável que tomávamos em consideração, ainda que seja questionável o próprio personagem. Reconheço que o ambiente entre os deputados não me parece nada respeitoso, mas um deputado sobre quem não pesava acusação de corrupção, abandonar a legislatura por causa de ameaças de morte, e outros estão em situação semelhante ou foram mortos, em um contexto que o crime parece sem limites, isso fala de impunidade e barbárie. Pior, aqueles sobre os quais pesam tais acusações continuam na legislatura sem que as esclareçam.

Se perdermos os limites ao invés de construí-los legitimamente juntos, sabendo que os consensos são difíceis ou até impossíveis, restará apenas a indiferença, a incerteza, o vazio, o arbitrário, a insegurança. Sempre que essas coisas são produzidas, está aí também um dos mais terríveis roubos: o da esperança.

Ameaçar a vida das pessoas sobre quem não pesa nenhuma acusação é um crime bárbaro. Mas, e quando há acusação? Temos vários nessa condição agora. A resposta é simples, deveria ser resolvida nos termos da justiça, não da barbárie. Justiça que, aliás, é tardia e pouco isenta em apurar os crimes dessa turma. Ao agir com dois pesos e medidas, traz descrédito, fragiliza as instituições e aumenta o crime e a violência tanto quanto aqueles que a praticam ou sobre ela supostamente legislam ou presidem.

Brasileiros, a violência fala pouco de indignação, ela fala de medo, impotência e abuso, covardia de quem a pratica. A violência é própria dos covardes, daí sua necessidade extrema de bravata e ameaça, de supressão daquilo que sente que coloca em risco o lugar em que se está mas, no fundo, não acredita ser o seu; ou ainda, a vontade irracional de ocupar o lugar em que está o outro.

A violência ainda é própria da mentira, da dissimulação do que se é. É medo de se olhar nos olhos e medo e insegurança de se colocar. Mais, fala de uma visão tímida e acanhada do mundo, de uma covardia prepotente que prefere se esconder atrás da bravata e do muque em riste, do que ter a coragem de arregaçar as mangas junto com os outros aos quais deveria ter a maturidade para ajudar.

A violência é uma porta fechada em um lugar escuro, que aberta leva a lugar nenhum senão à destruição dos valores que definem e preservam nossa humanidade. Na destruição do outro destruímos algo em nós mesmos e ficamos parecidos com o medo que destruímos, restando no olhar de quem pratica a violência não só a sombra do outro, mas um inexorável vazio cada vez mais vazio e sem razão.

Cada ato de violência é um mal que é feito três vezes, contra o outro, contra si mesmo gravando o outro dentro de si e por ter decidido deixar mais uma vez escapar a oportunidade de construir a justiça, a verdade, a superação de nossos problemas pessoais, morais e sociais.

Façamos uma conclamação à superação de nossos problemas, não ao impasse.

Ou alguém acha que nossas questões pessoais existem desvinculadas das sociais em que existimos, ou que podemos nos superar e caminhar vivendo em um ambiente de hostilidade e traição (porque quem usa a força mais rápido é traído e trairá).

O que precisamos é de um ambiente de tranquilidade, que em algum momento cada um de nós talvez já tenha imaginado para este país, precisamos de solidariedade, amizade e apoio mútuo, precisamos do conselho sincero e da ajuda, precisamos sim de colocar nossas discordâncias no direito de buscar valores, de confiar, ainda que haja contradições, que as belezas naturais em que construímos nossa sociedade expressem o respeito que temos (ou devemos ter) pela vida, pelo outro, por aquilo que, se destruirmos, jamais poderemos reconstruir: a vida.





      









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uma proposta de Euler Sandeville Jr.







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Folha, detalhe. Foto de Euler Sandeville, 2009.